quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Casuística - quinta

1. Ratos
Imagine uma gaiola cheia de ratos
cada qual na sua postura
de atenta observação
de fraquezas.

Prontos pra roubar
pra se defender
atacar
e matar.

Ficam nesta postura
o dia todo
em constante frenesi
até o inevitável.

Em algum momento
um rato irá morder outro
e um terceiro vai se aproveitar
disso.

Não entram questões
no meio dessa história
somente fatos.

É assim que se sente
qualquer um
em instituição
cheia de ratos.



2. Meu filho e eu

Não nos falamos muito
dizer o quê?
Não queremos correr o risco
de aborrecer a harmonia.
De sair da paz serena,
cair em redundâncias
ou perder tempo com besteiras.

O barco saculeja
enquanto navegamos nessa vida
de internet.

Queria dizer o quanto o amo
mas faço apenas passar as mãos
em seus ombros,
alguma vez na cabeça.

Fico escondendo dele
o medo de lhe assustar
com minha idade já ida
de tanta dor e recaída.

Sou pra mim e pra ele
um verdadeiro professor
que diz o melhor a fazer
ensina coisas que já esquecia
retira
e limpa o mofo
do rapaz que também já fui,
e lá desse fundo
recobra a força de jovem luz
que espera ansioso sua vez.

Estamos cá eu ele lá
juntos singrando mar
navegantes de internet.

O silêncio é cortado por poucas
e boas gargalhadas.
Nada melhor que a alegria
espantadora de tédios
e receios.



3. Johan sumiu de novo

A mãe dele liga nove horas da noite
falando alto
já é tarde e não sabe onde Johan está,
já procurou em todo lugar.

Promete surra homérica
eu começo a doer só de ouvir
aquelas bravezas
de vingança num menino
de doze anos.

Saio correndo
não tenho medo
sei que Johan deve estar distraído do tempo
na casa de algum coleguinha,
corro pra evitar o trauma
da surra que lhe espera
de cinta prometida.

A distância é longa
e receio não chegar a tempo
de salvar a pele
de meu querido menino
da dor, do inchaço
e mais ainda
do pavor de sua mente
de adolescente.

Chegamos na hora exata,
levo Eric na garupa,
sua mãe já sai nervosa
dizendo que ele chegou,
eu pergunto: você bateu?!

Não ainda espero ele sair do banho.

Entro eu e abro a porta do banheiro
e lá está ele
a figura de um desespero infantil,
desarmado, aflito e nu!

Converso com ele,
ele chora, eu garanto
que convenço a mãe dele
de não bater. Fique tranquilo
meu filho.

Lembrei da lei da palmada
e explico pra mãe dele
que se bater vou chamar o juizado
de menores.

Ela reluta e diz que quando criança
apanhava também.
Eu sorrio
lhe aponto
e digo:
- Tá vendo no que deu.

Quando chego em casa ligo pra Johan
ele atende satisfeito
escapulido do mal feito
agradecido me diz que vai ler
mais um capítulo do livro
que lhe dei.

Durma bem meu filho, papai te ama.





4. Mergulho nas palavras

Mergulhado em palavras
das quais não há saída.
De poucas
não de muitas,
que muitas palavras
são para poucos.

Não mas tenho muitas
poucas poucas
costurando retalhos de pano
de palavras
pobre mente pertubada.

Já as ouvi todas
um tanto quanto sem conta
mas se gravo algumas
alinhavando estas linhas
são poucas
que saltam vistas
a ponto de apanhar e escrever.

Apesar da piscina estar cheia
a água é suja
lamacenta
sobram poucas palavras
boiando inertes
prontas.

O resto decanta no fundo
grudadas, pesadas
e obscurecidas,
falta vida.

Consumo palavras
neste meio tempo
que não termina.
A maioria perdida,
esquecida.
Pairo cego sobre estas.
Cato somente as que esbarro
enquanto perambulo
neste caminho escuro.

É.
É a minha vida.
Sem importância.
Apenas com palavras
repetidas - quando não mudas -
fazendo poesia de mentira
que não enreda, nem cura,
é antes purga.

Desconfio que mergulhado estou
em palavras que não me querem,
só de teimoso, rude e impuro
na ousadia de quem não tem medo
de ser trouxa, esquisito, diferente,
arredio; continuo costurando
estas linhas.

Gosto de coisa limpa
brilhante e atentiva
talvez por hora me engane
que porventura noutros tempos
futuros, de experiência tida
desses brutos versos
caia o limo, rape a sujeira,
lime, limpe e lapide,
até que surja
coisa mais bela
que essas palavras sem graça,
cavadas, duras.

A poesia livre
apresentada na sua fatalidade
sem questão de pretensões
retiradas do engasgo
de palavras não faladas
engolidas.

Seria por demais
pedir desculpas
a quem não lê
e me repudia
a falta de sentido?
Pela impudica ousadia
de escrever aquilo
que ele nunca vai ler?
Mas não é essa a força
que tem as palavras?
De ter vários sentidos
e ao mesmo tempo nenhum?

Então licença eu peço
pr´aqueles que nunca .
Tuas palavras não são minhas.
E as minhas não são tuas.

Continuo mesmo assim
mergulhado em palavras
que são minha parte
da parte que me cabe.

Mesmo pobres
poucas
as escrevo
são minha prisão favorita,
e delas
por mais que esse mundo cão
queira
não as pode me tomar.






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